28 de junho de 2022

Bahia Política

Sem Meias Verdades

Lembra dele? Famoso vendedor de rosas em sinaleira da Garibaldi precisa de ajuda

Lembra dele? Famoso vendedor de rosas em sinaleira da Garibaldi precisa de ajuda

Foto; Correio

Quem já passou pela Av. Anita Garibaldi, em Salvador, sabe quem é a figura. É costume ver vendedores de jornal, fruta, queimado rosas e pano de chão nas sinaleiras da cidade, porém, um vendedor de rosas é raridade. Mas o filho de Seu José e Dona Ilda tem um diferencial. Seu Carlos chama atenção mesmo pelo sorriso que não desmancha no rosto e a alegria que espalha, há 25 anos, por quem passa pelas sinaleiras próximas ao monumento Clériston Andrade.

“Hoje eu trabalho levando amor e alegria para as pessoas. As coisas ruins deixo em casa. Aqui coloco um sorriso no rosto e faço de tudo para receber outro de volta”, diz ele. Quando Carlos Alberto de Jesus, de 61 anos, conversou com a reportagem, o único momento em que as lágrimas o forçaram a esconder os dentes foi quando falou sobre sua casa. O imóvel, construído por ele mesmo há 43 anos no bairro de Pero Vaz, veio abaixo em julho de 2020, por conta das chuvas.

“Era um domingo. Só ouvi o pessoal gritando de lá de baixo. Foi aí que vi as rachaduras. Corri para tirar umas coisas e saí de lá. Uma parte desabou, aí a Codesal interditou e teve que demolir”, conta o vendedor. “Foi uma coisa construída de pouquinho em pouquinho. Conseguia um dinheiro, comprava um bloco, cimento. Ver aquilo no chão foi muito triste, foi meu bem mais valioso da vida inteira indo embora”, lembra, emocionado.

Depois do episódio, Seu Carlos se mudou para uma casinha no mesmo bairro para viver de aluguel. Mas ali levou mais um tropeço. Juntou moedas num miaeiro por tanto tempo que parou de contar os meses. Um dia, saiu para trabalhar e, quando voltou, o celular e os R$ 480 guardados para uma emergência tinham sumido. “Não consegui pagar o aluguel e a moça que alugava para mim não quis saber, tive que procurar outro lugar”.

Foi aí que conseguiu uma outra casinha, também de aluguel, na Federação, onde está até hoje. Embaixo, um espaço pequeno comporta uma pia, uma geladeira e fogão velhos. Na parte de cima, duas prateleiras doadas e um colchão. Seu Carlos recebe auxílio-moradia de R$ 300. Mas o aluguel custa R$ 400. Para comer, conta com o restaurante popular Prato do Povo, que vende quentinhas a R$ 1. “No domingo, o restaurante não funciona. Aí eu consigo um mocotó com uma moça lá perto e faço um arroz em casa quando dá”, conta.

O que ele mais quer agora é ver sua casa de pé novamente, em Pero Vaz. “É meu sonho, com fé em Deus vou conseguir”. Para alcançar a meta, ele divulga o Pix na plaquinha que segura junto com as rosas na sinaleira e, com a ajuda do filho, criou uma vaquinha virtual. Estima que vai precisar de R$ 20 mil para a construção. Ainda faltam cerca de R$ 10 mil.

“Tenho orgulho de dizer que, apesar de toda a luta, sempre fui honesto a minha vida toda. Se não consigo um trabalho mesmo, se o dinheiro que tiro vendendo rosa não dá, vivo da ajuda das pessoas. Agora mesmo que estou juntando o dinheiro para construir minha casa, a coisa pode ficar apertada, mas não tiro dinheiro desse que está guardado de jeito nenhum”, diz Seu Carlos.

Antes das rosas, vendia jornal nas sinaleiras do Chame-Chame e de Ondina. Também já trabalhou em banca de cigarro e vendeu de tudo: cadeira, colchão, amendoim, tangerina, rolete de cana. Parou de estudar na 8ª série e desde os 8 anos coloca a mão na massa, mas nunca teve carteira assinada. Hoje, fica na sinaleira vendendo rosas de quarta a domingo pela manhã. Nos outros dias, faz panfletagem quando aparece uma oportunidade. Nos horários vagos, corre atrás de material de construção para a casa.

O dia a dia nas sinaleiras

Seu Carlos vende cada flor por R$ 5. Se o cliente quiser três e pechinchar, ainda rola promoção por R$ 10. Ele diz que, nos dias bons, consegue vender 10 rosas. Mas também tem quem ajude por fora. “Tem muita gente que passa aqui sempre, já me conhece. Tem o pessoal que tem bom coração e me ajuda. Às vezes, um dá até R$ 50; já aconteceu de me darem uma nota de R$ 100”, conta. Mas, se não tiver dinheiro, não tem problema. Segundo Seu Carlos, um sorriso já ajuda.

“Tem muita gente que dá bom dia, dá risada, conversa comigo, até se emociona. Mesmo que não compre flor ou não ajude, é gente educada”. Para conseguir essa reciprocidade, ele faz graça, brinca, canta música e até compõe poema. Na hora da entrevista, improvisou uns versos, inspirados na desilusão de quem vende rosas, mas ainda assim não escapa do golpe de ter um coração partido.

E o vendedor já tem até fama. “Essa semana fui num médico ali no Curuzu e um rapaz chegou para mim: ‘É você mesmo? Eu sempre te vejo quando passo ali na sinaleira’. Ele me reconheceu, a gente conversou. Me senti uma estrela, como se ele fosse um fã meu”, diz, rindo.

Mas, como nem tudo são flores, Seu Carlos coleciona momentos que preferia deletar da memória. “Tem outras que viram a cara, nem abaixam o vidro, algumas criticam sem nem conhecerem a minha história, sem saberem nada da minha vida”, diz o vendedor.

“Aqui tem outras pessoas na sinaleira também e, às vezes, dá confusão. Outro dia, estava eu e um rapaz aqui trabalhando. Quando o sinal abriu, fui rodar e ele veio atrás e não gostou que eu saí na frente dele. Já saiu me gritando, mandando eu sair, ainda quebrou quatro rosas na minha mão. Aí eu vou reagir? Eu deixo para lá porque não vale a pena. Se eu reagir, se eu entrar na confusão, vou estar me colocando no mesmo nível dele”, explica.

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