
O Brega de Orlando, cabaré histórico de frente para o mar na Praia Grande, em Salvador, vive seus últimos dias. O avanço das obras do VLT ameaça encerrar décadas de histórias, romances e resistência feminina no Subúrbio Ferroviário.
O lugar é único. Não existe outro brega colado ao mar, com cheiro de sargaço e vista direta para a Baía de Todos-os-Santos. Ali, prazer, paisagem e vida popular se misturam de forma rara. Para frequentadores e trabalhadoras, o fechamento significa apagar parte da memória da cidade.
Por fora, a entrada é simples. Azulejos azuis e laranjas destoam das casas vizinhas. Nada indica luxo. Porém, basta olhar para o fundo para entender o encanto. O mar domina o cenário. Avisos colados na parede confirmam: é ali que funciona o Brega de Orlando.
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A casa parece viva. Entre cervejas geladas e conversas soltas, histórias chegam sem esforço. Clientes antigos tratam o local como extensão da própria vida. Muitos cresceram ali, amaram ali e seguem voltando enquanto ainda há tempo.
Januário Jereba é um deles. Frequentador há mais de 30 anos, ele compara a possível demolição à queda do Elevador Lacerda. Foi ali que viveu paixões, casou e construiu laços. Agora, retorna para se despedir, tomado pela nostalgia.
Os romances fazem parte da rotina. Há casamentos que nascem ali e outros que convivem com o brega sem conflito. Segundo as trabalhadoras, respeito é regra. Em quase quatro décadas, brigas foram raras. O ambiente sempre foi de convivência e cuidado.
Aruza Skaf trabalha no local há oito anos. Para ela, o brega vai além do sexo. É sustento, autonomia e sobrevivência. Foi dali que pagou estudos, construiu casa e garantiu renda. O fechamento preocupa dezenas de mulheres.
Ela critica a retirada do prédio para dar lugar à vista do VLT. O trem sempre passou ali. Agora, dizem, querem a paisagem para turistas. Para Aruza, o Brega de Orlando deveria ser preservado como patrimônio cultural.
Galega resume o espírito da casa. Independente e direta, ela rejeita o rótulo de vergonha. Diz que oferece carinho, escuta e afeto. Muitos clientes procuram colo, não apenas sexo. O preconceito, segundo ela, ainda é o maior inimigo.
O fim se aproxima. Seu Orlando aguarda apenas a notificação oficial. O futuro endereço é incerto. Enquanto isso, o brega segue aberto, fora dos mapas, guiado pelo boca a boca. Entre o mar e a memória, o Brega de Orlando resiste até o último gole.
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