Pititinga some do mar de Salvador e vira peixe mais caro que camarão

Pititinga some do mar de Salvador, reaparece timidamente e chega a custar até R$ 50 o quilo, mais cara que camarão.

Foto: Reprodução/Moysés Suzart

A pititinga, peixe tradicional do litoral de Salvador e presença constante no tira-gosto baiano, praticamente desapareceu do mar da capital. Como consequência, a iguaria ficou rara e passou a custar até R$ 50 o quilo, valor superior ao do camarão. Dessa forma, o sumiço do peixe chama atenção de pescadores, comerciantes e especialistas, que apontam poluição, pesca predatória e mudanças climáticas como fatores centrais.

No Rio Vermelho, bairro historicamente ligado à pesca, a ausência da pititinga virou motivo de lamento. O vigilante Ailton Costa lembra que comprava sacolas cheias do peixe por poucos reais após o trabalho. Hoje, no entanto, a cena mudou completamente. Por isso, os pescadores incluíram pedidos pelo retorno da espécie nas oferendas a Iemanjá, no tradicional 2 de Fevereiro.

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Segundo Nilo Silva Garrido, diretor da Colônia de Pescadores do Rio Vermelho, os primeiros sinais de reaparecimento surgiram em Itapuã, ainda que de forma tímida. Entretanto, no próprio Rio Vermelho, não há registros de cardumes desde abril de 2023. Naquele período, Nilo presenciou a morte de centenas de pititingas adultas por falta de oxigênio, possivelmente causada pela poluição das águas.

Atualmente, a pesca da pititinga ocorre apenas no turno da manhã em Itapuã. Além disso, os próprios pescadores controlam os horários e a quantidade capturada, justamente para evitar novos impactos ambientais. Mesmo assim, a oferta é mínima. Em um dia inteiro de observação na colônia, apenas um pescador apareceu com o peixe, vindo de fora do bairro.

Enquanto isso, nos mercados de Salvador, a escassez abriu espaço para substituições. O peixe xangó, semelhante à pititinga, passou a ser vendido como se fosse a espécie original, principalmente para restaurantes menores. Contudo, a verdadeira pititinga, quando aparece, costuma vir de municípios como Maragogipe, Salinas das Margaridas e Madre de Deus, sempre com preços elevados.

Além do impacto econômico, o desaparecimento da pititinga provoca desequilíbrio ambiental. Isso porque o peixe serve de alimento para espécies maiores, que também começaram a sumir. Em regiões como Jauá e Plataforma, pescadores relatam que a ausência da pititinga desencadeou uma reação em cadeia, reduzindo a diversidade marinha.

Especialistas afirmam que a mudança climática intensifica o problema. Ainda assim, reforçam que a degradação causada pela ação humana já vinha afetando o ecossistema há décadas. Por fim, embora a fé em Iemanjá siga forte, pescadores reconhecem que não há milagre capaz de compensar rios poluídos, pesca predatória e mares adoecidos. Sem cuidado ambiental, a pititinga corre o risco de virar apenas memória na cultura e na mesa do baiano.

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